quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

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Minha primeira vez foi aos 7 pra 8 anos. Ridículo quando eu tento me lembrar.
A casa do meu pai onde eu morava na época tem uma banheira, uma banheira feita de mármore construída inteligentemente por ele e pela minha mãe, o mármore mantem a água gelada, não importa o quão quente esteja a água ou o dia.
 Uma vez eu ouvi que os árabes usavam uma expressão que usava o mármore como metáfora pra o fogo do inferno, me disseram que era porque alguns caixões eram feitos de mármore e ouvi dizer também que o motivo era porque mármore é uma pedra tão gelada que próxima a pele por muito tempo "queima" quase como se você mantiver seu braço dentro de uma bacia de gelo. Eu não sei mesmo se nada disso é verdade, eu só ouvi dizer.
Eu enchi a banheira quando meu pai estava fora e tranquei o banheiro, eu tentava primeiro prender o ar pelo máximo de tempo que eu conseguia embaixo d'água e depois ir soltando aos poucos e forçar meu cérebro a acreditar que a água era ar e que eu devia respirar ela, como costumava ser quando eu era um feto flutuando dentro do corpo da minha mãe, por mais que eu tentasse quando a água entrava e eu sentia ela queimando o meu nariz por dentro, eu abria a boca e entrava em desespero, em certo ponto e meus braços procuravam algo pra se agarrar e achavam fácil e eu me puxava pra fora d'água quando eu começava a me debater por dentro. Sobrevivência. O seu corpo dá conta disso até quando você rejeita a oferta.
 Essa banheira fez parte dos meus pesadelos por muito tempo, e ela ia mudando eram varias banheiras diferentes que se encaixavam em dentro de vários sonhos diferentes.
Não consigo pensar numa unica razão pra ter feito isso, a verdade é que eu lembro de pensar em varias.

Depois dessa tiveram mais duas tentativas, numa delas eu quase arrebentei o ventilador de teto do quarto e tive de jogar fora uma das gravatas do meu pai.
Não contei nada disso pra ninguém, a não ser pra minha irmã mais nova as vezes, que era muito alegre pra entender qualquer coisa que eu dissesse sobre isso, assim como meus pais, eles acreditavam que meus ataques de fúria e de choro e a minha falta de sono e os pesadelos quando era criança era uma forma de ciume e de que eu queria atenção. Meu pai não podia me ajudar, ele não entendia o que era depressão, eu não entendia o que era depressão, eu fui criada na zorte norte do rio, num lugar onde tristeza e choramingo é frescura e privilegio de gente rica que pode pagar pra alguém ouvir seus problemas, eu supostamente não tinha problemas aos olhos dos meus responsáveis, que tipo de dor ou sofrimento é esse que uma criança que tem o que comer e o que vestir e onde dormir teria ? Eu pensava as vezes...
 E me odiava as vezes por me sentir me vitimizando numa situação que não era tão ruim assim, ajudava a curto prazo pensar desse jeito por um tempo, as vezes. Eu suprimia esse sentimento, eu não me dava o direito de sofrer quando eu não estava passando fome ou não tinha onde dormir, eu não gostava de me sentir infeliz porque parecia injusto com o mundo, (como se eu devesse algo ao mundo) eu não sabia que não era normal eu não querer viver, e sentir as vezes tanta coisa por tudo e por todo mundo e as vezes não sentir nada por ninguém, nem por mim. E suprimindo isso, eu comecei a diminuir os surtos, mas quando eles aconteciam eram ataques de raiva muito intensos e muito mais difíceis pro meu pai ou qualquer pessoa próxima a mim controlar, eu urrava, quebrava coisas, dizia que ia embora, que odiava todo mundo, que estava de saco cheio de viver, essas coisas que seriam relativamente normais se eu fosse uma adolescente problemática, mas eu ainda era criança e nada daquilo fazia sentido pro meu pai.

Eu frequentei por uns meses a psicologa da escola quando meus surtos começaram a atingir o meu convívio escolar e eu brigava muito com as outras crianças durante o ensino fundamental e algumas tinham medo de mim, eu não conseguia falar com a psicologa, ficava horas sentada sem dizer nada jogando algum jogo ou chorava e não dizia o motivo, dizia que amava minha vó, que amava meu pai e minhas irmãs, e que me odiava as vezes, que achava que a culpa da infelicidade das pessoas a minha volta era minha, que eu não conseguia ficar feliz por muito tempo.
A psicologa piorou as coisas por um lado e acabou melhorando por outro, ela reforçou a ideia, de que eu queria chamar atenção, o que meus pais não entenderam como "precisar" de atenção, mas sim como fazer coisas que chocassem pra chamar atenção. meus pais entenderam que o melhor jeito de resolver os meus "surtos" era ignora-los, agir como se eu não estivesse gritando ou quebrando coisas, como se eu não estivesse ali, o que provocou um gelo imenso numa relação que já era frágil, a comunicação com os meu pai era quase inexistente; Mas durante esse tempo na psicologa eu conheci uma menina, a unica menina que frequentava a psicologa também era motivo de piada pras outras crianças, ela tinha os pulsos cheios de marcas brancas na horizontal e parecia não pentear o cabelo. Eu e essa menina ficamos amigas, e me meti em brigas com outros alunos por causa dela inclusive, a gente nunca falou sobre as marcas no pulso dela e nem por que eu também frequentava a psicologa, mas a gente falava sobre como nos sentíamos sozinhas, e como ninguém entendia e as vezes ninguém perguntava como a gente se sentia, conversávamos sobre não conseguir dormir, e sobre pesadelos, e sobre medo de outras pessoas, medo da vida mais do que da morte, quando eu estava irritada com meu pai, com alguém na escola ou com vontade de chorar eu ligava pra casa dela escondido e a gente conversava e passava. Ela entendia.
A gente foi crescendo e ela mudou de escola, eu chorei muito, lembro de ter pedido pra ir pra escola militar junto com ela, mas eu não tinha feito a prova.

Com o passar dos anos, eu não falei mais sobre isso com ninguém, e fiz outros amigos na escola e na minha rua, meu pai sempre desaprovava minhas amizades, que pareciam sempre pessoas "perturbadas como eu" - " mas será que todos os seus amigos tem problemas com pais?", "será que nenhum de vocês é normal?" ,"Porque você não anda com jovens normais e saudáveis da sua idade?" Os meus surtos de raiva em casa ficaram cada vez mais raros, eu passava a maior parte do tempo trancada no quarto e meu pai reclamava disso, mas não ia conversar comigo sobre, eu já era uma adolescente e era desconfortável pra ele lidar com uma adolescente do sexo oposto a ponto de virar um animal pronto pro ataque a qualquer momento, tenho a impressão de que meu pai me via como um campo minado ele não sabia onde pisar ou que dizer porque qualquer movimento podia fazer eu destruir a casa, ele e a mulher dele junto, e eu lembro que toda vez que havia uma reunião em casa, um jantar ou um café da manha a mesa eu sentir como se não me encaixasse, como se eu não fosse desejada ali, como se eu fosse um estorvo. Eu era uma bomba relógio que estava sentada a mesa, e todo mundo parecia respirar aliviado quando eu finalmente ia pro quarto dormir.

A minha adolescência revoltada foi silenciosa eu expressava nos CD's e nas roupas, na recente descoberta do álcool e do cigarro, era comum na janelinha do meu quarto, o que remediava de certa forma a minha dificuldade pra dormir e eu não lembrava dos pesadelos de manha, mas não falava sobre isso com ninguém, meus amigos me achavam interessante e contraditória, por ter todo aquele estilo bad girl inconsequente e ser alegre, positiva o tempo todo, estar sempre na roda, acho que ninguém presumia mesmo que eu não estava só mantendo o estilo mas deixando aquilo tudo obvio o suficiente pra não ter que explicar sobre, ou seja funcionava. Lembro que em um dos churrascos da minha família, minha irmã mais velha uma vez ficou bêbada e leu a mão de todo mundo, inclusive do meu namorado na época e em seguida ela pegou a minha e parecia ter ficado sóbria na hora, e parou de fazer aquilo, disse que não queria fazer aquilo mais e foi embora um pouco depois disso.
Eu que sempre me interessei por ocultismo e achava aquilo incrível na minha irmã achei um livro de quiromancia (leitura das linhas das mãos) na casa dela emprestado um tempo depois, o livro era da minha falecida mãe, ela me disse, tinha ganhado de presente e eu li e entendi o que ela tinha visto, ela viu que eu ia  morrer jovem, uma interrupção, provavelmente voluntaria da própria vida, pelo o que o livro dizia eu não ia chegar aos 25.
E eu sabia o porque, eu sabia que isso era uma possibilidade, mas eu ignorei isso, porque eu tinha um plano. Eu acreditei que minha família, a que eu sentia que não me encaixava e que eu acreditava ser um incomodo e um motivo de infelicidade para era o problema, o meu plano era estudar, discretamente e ler a maior quantidade de livros que eu pudesse em 4 anos, pra prestar o vestibular pra outra cidade e ir embora, eu comecei a trabalhar e a pensar em varias outras formas de conseguir dinheiro pra colocar isso em pratica e a ideia foi ficando forte, eu fui ficando feliz, com o plano, eu conseguia dormir, exausta de tanto fazer cálculos e ler e fazer desenhos de como eu imaginava a minha casa fora dali. Quando eu finalmente consegui, eu tinha 17 pra 18 anos quando sai de casa definitivamente, tive ajuda da minha vó e das minhas irmãs mais velhas e cunhados no inicio e eu estava feliz, tão feliz que eu não acreditava que aquilo era possível, eu vivi e viajei, e amei e me despedacei e me remedei, e eu fazia compras no mercado e limpava o apartamento que era pequeno mas era a minha cara e fazia exercícios, ia a praia, andava com muita gente quase nunca parava em casa, estava sempre escrevendo ou bebendo, adotei uma gata geniosa e o fato da faculdade ser algo difícil pra mim ficou submerso nessa felicidade toda. Eu me perdi, mas pelo menos estava feliz, cercada de coisas e pessoas que me faziam esquecer eu nem sempre fui assim.

Eu estava com 21 anos, quando meu pai descobriu que tinha câncer, e eu me mudei de volta pra cidade e deixei a faculdade, estava abatida como sabia que ficaria caso voltasse aquele lugar, mas sentindo que eu tinha força pra aguentar a barra, ele se separou e a porrada foi forte pra ele, ele se deprimiu e vira e mexe voltava em feridas do passado que eu tinha esquecido, que eu não pensava mais, que eu não falava sobre.
Ele falava da minha mãe, e da minha infância e de que nunca me entendeu, e do sofrimento que aquelas memórias todas traziam pra ele, e um dia eu estourei, tive um acesso de raiva, joguei no vento aquela raiva enterrada aquele sentimento que eu fingi que tinha morrido e me vi mais uma vez sozinha naquele banheiro encarando a banheira cheia de água fria, eu já não sou uma mais uma criança, eu tinha a banheira, e comprimidos e autorização pra usar giletes, ou facas ou uma corda, eu podia fazer e ninguém ia me impedir. Eu estava sozinha, e pensei naquilo, pensei que eu nunca mudei, eu nunca fui feliz, eu só esqueci que estava triste, que aquela onda, aquela banheira que ainda aparecia nos meus sonhos tava lá o tempo todo, só tava dormindo ou muito bêbada pra perceber.

 Nesse período eu fiz algumas escolhas ruins me envolvi com a pessoa errada na hora errada e me tornei uma pessoa dependente daquele cuidado, (que não era bem cuidado) eu aceitava porque não conseguia me enxergar, me ver, ou mesmo protestar, eu não acreditava na minha própria existência era tudo muito subjetivo, e eu não sabia as vezes nem o que ele estava fazendo ali, ele parecia feliz e satisfeito, mas como? Como alguém se satisfaz as custas de um cadáver? Eu não podia ser amada, não ali, não daquele jeito, eu achava que eu precisava que alguém cuidasse de mim, pelo menos por um tempo, e tentei trabalhar por um tempo, achei que nunca mais fosse voltar pra faculdade ou a ser eu mesma novamente, eu me sentia sozinha, mesmo com ele e não conseguia dormir, a falta de sentimento foi voltando a se encaixar no formato da raiva, e eu me ressentia dele e ele se vingava porque era um jogo divertido pra ele, enquanto eu fingia estar bem, ele achava que eu estava lucida e eu não tinha bebida só o meu pai e aquela casa e a frustração. Nisso 3 anos se passaram e um dia eu recorri aos comprimidos na banheira, foi uma cartela inteira de alguma medicação que meu pai tomava eu não tinha ideia do que era, foi só um impulso, porque eu não queria fazer sujeira, eu só estava cansada, eu só queria dormir, eu só queria não pesar e não pensar.
O meu companheiro na época ouviu o barulho no banheiro e me fez vomitar a tempo, senti muita dor no estomago só e ele não me deixou dormir e eu me recusei a ir ao medico.

 Depois disso, eu quis acreditar que se eu tinha conseguido sair disso uma vez eu ia conseguir a segunda sem ajuda. Eu me separei dele, limpei a casa, e comecei a procurar apartamento em outra cidade próxima e reaver minha entrada na faculdade pra terminar o que eu tinha começado, foi difícil, eu conseguia dormir raramente, mas a cada coisa que eu realizava, eu me sentia forte de novo, o excesso de esforço me fez entrar em colapso duas vezes, crises de panico, uma num bar com os amigos que não entenderam o que aconteceu e se assustaram, mas me socorreram e me levaram pra casa e outra em casa sozinha, meu pai chegou e me encontrou deitada no chão do corredor, gritando sozinha que eu precisava ser internada, que eu devia estar morta, que eu queria isso e que estava cansada.
Meu pai tentou disfarçar o choque de me ver completamente fora de mim, logo eu, com um argumento bem embasado pra tudo, auto-suficiente, selvagem, obstinada, a filha precoce, a independente, eu, ali no chão como um animal ferido gritando e chorando rangendo os dentes e não querendo ser tocada, vulnerável e desesperada. Meu pai passou aquela madrugada conversando comigo e acho que meu pai pela primeira vez me ouviu e tentou entender que eu não era normal que eu nunca fui e eu me mudei em 3 meses, ele ajudou como pode, e ficou triste por eu estar deixando a casa e ele mas entendeu que minha saúde mental era algo que eu precisava se ele queria que eu continuasse viva.

Eu fiz 24 esse ano. E no meu aniversário desse ano minha irmã pediu pra ver a minha mão, e as minha linha da vida rompida parece se aproximar como que se remendando uma na outra. E ela voltou a ler mãos de novo.
 Eu ainda sonho com banheiras, e ondas e lagos, eu me sinto perdida a maior parte do tempo e qualquer noticia do mundo exterior do meu quarto não ajuda, a crise politica, a guerra na Síria, as desigualdades que a gente encara todo dia, dói de um jeito físico e eu sei no fundo que não é só isso, não é só porque algo ruim acontece no mundo ou com outras pessoas, não é o fato de que algumas poucas pessoas, hoje em dia, não conseguem sentir isso, as vezes eu penso nisso e eu sei que por mais determinada que eu esteja a não tentar de novo isso é algo que vai além de tentar o suicídio de fato;
É me ver arrumando confusão num bar ou com um namorado problemático, e é óbvio.
É pensar que toda a vez que eu vou pra linha de frente em um protesto, ta ali.
Quando eu penso sobre doenças que me deixariam em estado vegetativo, e isso me parece confortável, quase como um alivio ao ponto de me fazer ficar na cama por dias e não sentir vontade de levantar nem pra comer, eu sei o que eu estou esperando...
Quando eu subo no lugar mais alto da cachoeira pra pular de lá, eu entro no mar mesmo com aviso de ressaca, mesmo quando chove, mesmo quando está frio.
É o modo como eu adoro estar em um carro em alta velocidade e eu não sinto medo; E todas as vezes que eu penso nisso, agora, eu procuro uma amiga, um amigo, a minha terapeuta, porque eu decidi continuar e é mais fácil quando alguém me entende, quando eu posso falar disso.

 Porque eu sei o que quer dizer esse limiar que eu procuro, entre sentir alguma coisa e não ter medo de não sentir mais nada, mas sentir... Sentir não pode ser subestimado, ou diminuído como quem acha que não merece isso, é muito e é tanto e eu sei, é pesado. Mas nós somos um oceano dentro de uma banheira! E a gente vai lutar pra sobreviver querendo ou não, porque não é se vitimizar ser capaz de sentir e não há ninguém que possa nos fazer duvidar do nosso direito de estar aqui. E esse papo de que tem gente sofrendo mais do que você não funciona a longo prazo e se pra você pensar nisso ainda funciona pense em arrumar um jeito de lidar com esse sofrimento pra que você possa ajudar quem sofre também, pra que você encontre conforto e conforte também, se isso ajudar,  mesmo que você não consiga encontrar uma razão para o seu sofrimento, porque é a sua dor e você tem direito de sentir isso, você pode sentir e ninguém pode te negar esse direito, nem você mesmo, acredite em mim, é pior quando a gente nega; mas você não precisa se sacrificar, ou desistir, você pode encontrar equilibro entre o prazer e a dor. Não é como se isso fosse passar, não vai, mas é suportável quando alguém entende. Você entende coragem quando sente medo, e mesmo que se sinta fraco, por tanto tempo, já percebeu o peso você carregou até aqui ? Você é forte e não é pouco e quando alguém entende é possível acreditar que há mais do que isso, que por pior que seja não sentir absolutamente nada ou não querer sentir, você ainda sente, você tem pulso. Você é uma força da natureza, você pode ser imparável se você decidir que é isso você quer. E você pode levar o tempo que precisar, você tem tempo, e eu também vou estar aqui esperando.
Você não está sozinho;