segunda-feira, 29 de outubro de 2012

O Copo.




R  -    Como se sente?

N -    Nada, porque?

R -    Como assim, nada?

N -    Nada. Não sinto nada faz tempo, quer dizer, sinto... Sinto tudo,talvez por isso esteja anestesiada sentindo nada, há meses. Deve ser o inverno, ele congela as coisas por dentro... Mas é Outubro, e ontem fez 35ºC , mas há estações dentro de nós eu creio.

R -   Sim há.

N -   Há uma roda no meu corpo, que as vezes gira ao contrario do sentido que devia girar. Me desconectei tempo demais. Vejo corpos dançarem na minha mente, diversas canções, em curtos atos, e cantos antigos e encenações improvisadas. Pele, lábios, olhos, língua, mãos, suor. Não sinto mais.

R -   Você acha que isso é o máximo que se pode sentir?

N -   Você acha que essas são as únicas experiencias que se pode ter? Você acha que tem mais?

R -   Você acha que tem mais?

N -   Não sei. O que você acha?

R -   Eu? Eu acho que há mais pra sentir, você sente essas coisas, ou sentiu um dia, voltará a sentir, sempre, é cíclico. Um dia a roda se ajeita, e virá tudo aquilo que vibra na mesma frequência que você emite. Você não quer alguém com frequência nenhuma de sentir nada.

N -   Você é otimista, eu penso que somos poucos, pequenos, nem tudo se trata do que eu sinto, o mundo as vezes é ceifador, e escolhe alguns que tiraram sorte que pediram, outros precisaram decidir no que querem ter sorte. Eu me perdi na roda, já soube sentir, já soube o que queria, não sei se quero mais, não sei que quero sentir algo de novo. Somos nós e tudo o que fica enterrado dentro da gente até que a gente não se lembre mais a respeito de que ou quem, mas de que já sentiu, que foi bom, delirante quando a urgencia de sentir passa, depois de muitas janelas de ônibus e drinques com nomes exóticos no bar. você para de sentir, é gradativo e ai para.

R -   O que você quer sentir?

N -   Não disse que quero. Disse que tenho medo, também não disse que não quero. Antes eu não tinha, eu pedi, eu quis, senti tudo e muito de uma vez e me deixou vazia. Mas sei que é muito, é leve e pesado sabe? O acelerar do coração, você pensa que vai morrer, as vezes pensa que já pode morrer, suas pernas não tem equilíbrio nenhum, o cheiro que fica a sua volta te embriaga mesmo depois que ele vem sem dono, você pensa em meios de se fundir, por todos os buracos do corpo você quer ser o outro e estar no outro, se banhar do outro, sobre o outro, você não tem medo de nada nem de ninguém, vicia, juro! Não parece ter fim, é um pensamento único desde que se acorda a hora em que se dorme, e você pode não pensar em casamento, em cães, em contas, em com quem o outro está saindo, porque você tange o pensamento de que nada disso importa desde que ele seja você, que ele saiba de você que queira você, estar em você também, você tem vertigens trocando saliva e arrepios trocando olhares.Você se confessa como se tivesse alternativa quando na verdade não tem.É um furacão de todas as drogas mais fortes juntas. Tem um preço. É uma troca. Nem sempre você é o lado que sai ganhando quando a corda arrebenta, você deve se lembrar: é uma troca, se você deu tudo, no final, fica com nada. E enquanto sente o nada, fica se questionando se vale a pena...


(Silencio)


R -   Nossa...


(Silencio)


R -    Eu nunca senti essas coisas.

N -    Um dia vai. Fique certa, e vai amar sentir, amar demais, até doer. E dói.

R -    Que vazio...

N -    Como assim, vazio?

R -    Vazio, porque?

N -    Como se sente?


                              ad infinitum...







Nota: Primeiro dialogo entre personagens, Nera a personagem dos contos até agora apresentados nesse blog e Renata que em breve terá grande participação nos contos que seguirem, eventualmente haverá diálogos entre elas, com todas as convergências que heterônimos podem ter.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Além do que se vê.


Sou a dona do meu arrepio
de todos os detalhes que me provocam o riso
E todas as lembranças que me embalam feliz.

Sou guardiã das minhas memórias
Onde eu possuo, cada cheiro e cada gosto
Todo beijo e diferentes rostos
Sou tantas almas, um só corpo.

Eu guardo o segredo de cada lágrima
Cada palavra entalada
Toda magoa guardada
Com a chave do cofre trancado
do rancor, que sei que guardo.

Sou só eu e os lençóis enrolados no punho fechado
Manchado pelo suor das minhas costas
E os gritos abafados pelos dentes serrados
Do animal em mim lacrado

Eu me escondo na força do silencio numa mesa de bar
No colo onde choraram dores de outros amores
É o altar do meu corpo que não há como controlar
O castanho avermelhado nos teus olhos minhas cores.

Sou protetora dos pactos de sangue, saliva e olhar
Esses olhares que aos meus lábios enchem os egos
E o coração de cálculos frios
Que pelo meu reflexo no espelho você não seria capaz de notar.