sábado, 30 de junho de 2012

Coffee and Cigarettes


    Por volta de uma hora da manhã nos encontramos, eu e ela.
Fiz um café, bem na minha frente ela, eu, o café e o cinzeiro prateado. Eu puxei o cigarro, ela acendeu e deu um gole no café, eu coloquei na mesinha...

    Depois de todos esses anos ela está aqui, de novo.

    Eu comecei; Pensei em contar que me mudei, que amei e desiludi, morei com alguém um tempo e depois fui embora, que vendi meu carro, que ainda vou a praia a noite, que viajei a trabalho e nada deu certo e voltei pro apartamento alugado no centro, que meu pai teve doente, que minhas ideologias mudaram, mas ela parecia tão exausta me olhando em silencio com os lábios mexendo daquele jeito estranho dela.
    Tudo o que eu senti nesse tempo sem ter noticias e ainda sinto as vezes... A culpa não cabendo nos espaços do silêncio, antes do sono com os dentes rangendo me perseguindo rasgando entre o peito e a garganta... Esse é preço da minha vaidade?
Ela deve gostar de me ver assim... Sem dizer nada, os olhos dela me olham como quem pergunta da minha sanidade e lá se vai outra xícara de café e outro cigarro no silêncio são duas e quarenta e ainda não dissemos nada.
   Eu noto as olheiras enormes abaixo dos olhos grandes dela, eu já a achei bonita, antes, da ultima vez que a vi, mas hoje ela está cansada, parece doente, talvez esteja triste, talvez trabalhando demais...
 Maldita seja, com aqueles olhos gigantes me encarando sem piscar esse jeito mesquinho dela de me olhar como quem veio me cobrar algo que eu disse a tantos anos atras e não cumpri, nunca cumpro, como se ela não soubesse!
    E o que ela quer também?
 Me aparecendo uma hora dessas, pra nada, por nada a troco de nada?
    Veio jogar na minha cara as frustrações da vida dela como se fosse minha culpa?
Aposto que com tudo o que eu fiz por ela e todo o mundo que apresentei pra ela, os livros e pessoas, os discos e os bares, ela ainda usa as mesmas roupas, sai com as mesmas pessoas, ouve os mesmos CD's ainda pensa naquele babaca, todos esses anos sem nos encontrarmos e ela me volta a mesma merda?
 Intransigente, arrogante, desleixada, intempestiva, frustrada!
Nunca devia ter me importado tanto eu tenho a minha vida agora, meus amigos, meu emprego, minhas ambições, eu não a quero aqui, me lembrando coisas que eu queria esquecer . Eu fiz uma reta pra ela  e ela seguiu em círculos.
   - Chega!
   - Eu não aguento mais, não aguento você!
 Eu nunca quis você perto de mim, nunca quis você aqui!
Eu não sei se você vai voltar daqui a mais alguns anos ou se vai sumir como sempre faz, eu não me importo, nunca me trás coisas leves, você é pesada demais, frustrada demais,
Eu quero que você suma, você, o seu peso e suas frustrações e suas lembranças, essa cara de choro, fria e inconveniente como sempre, vá pro inferno e me deixa só!

    Eu virei as costas decidida a não olhar pra trás naquele momento apaguei o cigarro no monte de cigarros amontoados no cinzeiro larguei o café, as 4:50 da manhã, desliguei a luz e cobri o espelho.

Respirei fundo e ela finalmente se foi por trás do pano negro.
Deitei, mas não dormi.


Nenhum comentário:

Postar um comentário